Blog desses tempos

terça-feira, agosto 31, 2004

Adorei este texto do Jabor. Quem quiser lê-lo por completo, é só clicar aqui. E antes que qualquer desavisado me pergunte, não, eu nunca li o tal "bunda dura" que circula internet afora. Como não sei se o link vai funcionar, copio alguns trechos do texto para cá. Que dizem :

"Eu nunca escrevi o ‘Bunda dura’

Eu não escrevi “Bunda dura”, texto que rola na Internet e que está virando um cult , principalmente para mulheres. Toda hora, alguém me pára na rua: “Adorei a sua ‘bunda’!” “Que bunda, cara?” — digo, fingindo que não sei o que é. Não dá outra: “Aquele texto seu, que idéias, que ironias..”, me responde. Fico louco, porque estou sendo elogiado justamente pelo que não fiz. Toda semana tento ser inteligente, escrevo sobre o Bush, a crise internacional, espremo meu pobres conhecimento filosóficos ou sociológicos, capricho na língua, tudo para ser chamado de “profundo” e, aí, “Bunda dura” vem e é meu prêmio Jabuti, minha medalha.

Entrei no Google e botei “bunda dura”; pintaram dezenas de referências. A maioria é de mulheres que, creio eu, não têm ou já tiveram bunda bonita. Quem será o famoso autor de “Bunda dura”? Creio que é uma mulher, possivelmente, baranga. Certamente Juliana Paes não protestaria. O artigo é a vingança de trêmulas nádegas eivadas de celulites.

(...)

Isso dado, devo afirmar aqui minha posição definitiva em relação à bunda, seja ela dura ou mole. A bunda realmente me inquieta. Dá-me a impressão de ter se destacado do corpo e de ter ganho uma vida própria. Antigamente, a bunda fazia parte da mulher completa, talvez mais oprimida, com celulite e varizes, mas é inegável que a bunda era parte da mulher. Hoje a mulher é que pertence à sua bunda. Há mulheres que passeiam seus bumbuns como cachorrinhos de luxo, outras que chegam a ter ciúmes de suas próprias bundas, mais queridas que elas. Há bundas que chegam a ter pena de suas donas e parecem dizer: “Prestem atenção nela, ela também é legal..”

Hoje, visivelmente, o desejo sexual do homem migrou para os bumbums. Nas revistas de sacanagem as vaginas têm perdido terreno em relação aos bumbuns. Por que será? Talvez porque a vagina seja um território mais sagrado e mais temido. Dela sai a vida, saímos todos, há mistério na vagina. Ali é que está a verdadeira diferença sexual, já que bundas bonitas podem ser de homens e mulheres. A vagina não. Ela angústia os homens por ser o lugar de uma castração simbólica. Na vagina, “não há” alguma coisa. A vagina põe os homens diretamente diante de seu oposto. Fala-se muito em inveja do pênis para as mulheres. Que nada. Hoje, com a liberdade da mulher, o grande trauma é o “medo da vagina”. Os homens têm medo de enfrentar aquela entrada para o ventre, aquela porta de caverna onde poderíamos nos perder.

Chega a haver um movimento nos salões de beleza para devolver à vagina, melhor dizendo, ao “monte de Vênus”, um novo encanto pós-moderno. Talvez a velha floresta pubiana, desordenada, inextricável das vaginas d’antanho, parecesse aos homens uma selva de perigos. Hoje, as mulheres gastam horas penduradas em trapézios para ter seus pentelhinhos reduzidos a um bigodinho básico, inocente, como se dissessem: “Venham sem medo... Sou apenas um tufinho elegante, como o bigodinho do Sarney ou no máximo o bigodão do Greenhalgh do PT, mas nunca chegarei ao desgrenhamento sinistro de Olivio Dutra. Venham!”

Mas talvez não adiante muito, pois homens e mulheres cultivam mais a bundinha porque ali é o lugar da irresponsabilidade, da não-vinculação, do não-casamento... A bundinha é livre, não faz nascer, não leva à igreja. A bunda tem mais a ver com a sexualidade irresponsável e veloz de hoje. A bunda não procria, muito pelo contrário. A bunda não tem rosto, como o “sujeito moderno”. A vagina é o lugar do “outro”; a bunda o lugar do “mesmo”. De costas, a mulher fica menos ameaçadora. Seus olhos, sua boca, seus sentimentos não ficam visíveis. Na relação anal, todos estão ausentes, não há a perigosa defrontação com um sorriso irônico, a frieza de um olhar. Na relação anal estamos sozinhos. Além de tudo, na relação anal ou mesmo “more ferarum” (como as feras) haja um resquício mais animal, mais ancestral, lembrança de macacos e macacas e não a santificada “posição do missionário”, como chamavam os selvagens da África, vendo seus catequistas transando no tradicional “papai e mamãe”. Nesse espantoso panorama de bundas que vemos em toda parte, barriguinhas de fora, calça baixa e bundinha empinada, em shoppings, colégios, vemos que a amostragem clara, modelada, das bundinhas não tem mais nem maldade. É a moda de mercado.

Antigamente, havia a sedução pelo despertar da curiosidade, pelo atiçamento, para os homens adivinharem as belezas femininas ocultas. Hoje, com a competição, a exposição radical de bundinhas é prateleira de ofertas. Há um professor de ginástica que grita: “Vocês não tem vida interior, não... Só bunda e barriga!”

Talvez essa seja a razão do sucesso do texto que não escrevi. Na vida secreta as mulheres querem ser amadas pelo que são profundamente. Mas ninguém vê suas belezas internas. É como eu. Ninguém me ama pelo que escrevo. Só gostam da bunda dura que não é minha." (texto de Arnaldo Jabor)

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E eu completo, ratifico, seja lá o que for, como já escrevi anteriormente aqui : A relação anal é uma invenção do homem machista. A relação anal não cria cumplicidade. Um de frente, outro de costas, que coisa mais esquisita. E o olho no olho ? Não interessam mais os "olhos nos olhos" que um dia Chico cantou. Hoje a relação sexual é regida pela agressividade subjetiva. Essas patricinhas por aí, não querem mais o afago, o carinho e o romantismo que um dia foi valorizado. Elas querem, mas se não vier vestido de caráter agressivo, "aí não vale, aí eu não dou". A fantasia hoje, é subversiva.

Explico-me. Cansadas da melação dos romances perfeitinhos, as mulheres "masculinizaram-se" : a moda hoje é a insegurança, a fantasia do estupro. É o voltar à época em que havia uma diferença maior entre homens e mulheres. Sim, porque depois do "metrossexual", não há mais o que inventar, não há como ser mais "perfeito" que um homem de sombrancelhas desenhadas à perfeição, como um emberbe de peito depilado, quase um David de Michelângelo. Já que não há como ser melhor do que esse "novo ser-homem", o inconsciente coletivo feminino regride ao que há de mais "imprevisível" e "deseducado" que é o "entrar sem pedir", o "insisto porque sou macho, agressivo", aquela coisa cafona do "agora sou somente um ser-pau, macho, superior". Uma fantasia fascista, que é o único "meio" que a mulher tem, de, psicologicamente, "colocar-se no seu lugar". E o que é o homem-cafajeste ? O homem-cafajeste é exatamente este indivíduo que deixa de ser indivíduo para ser um conceito burro e ditatorial. Ele representa a idéia da sociedade falocrata e "põe" a mulher na posição "inferior", do tipo "cala a boca enquanto eu te como".

É hora de resgatar o carinho, a valorização do ser por ser único. É hora de a mulher voltar a ser feminina (e não masoquista, passiva), da valorização da sociedade maternal e acolhedora. O mundo voltou a ser machista na era Bush Jr., tudo se trata do poder bélico (o falo), do "eu sou melhor do que você", da manipulação inescrupulosa, do "homem-fodão" (e também da "mulher-fodona" e machista) e a sociedade virou um antro de "machos superiores no comando". É hora de resgatar a sociedade da verdadeira beleza e dos valores. E não uma idéia tola e estereotipada do que venha a ser este novo conceito idiota do que significa ser do sexo masculino. E tenho dito.